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Mauro Barbosa Gomes

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O NOVE

 

A verdade

 

Estava eu correndo freneticamente os canais com o controle nas mãos e o pensamento longe, quando minha senhora ordenou “pára nesse aí”.  Estava passando “House”, uma série da TV a cabo que fala de um médico arrogante e competente ao extremo.  Ele tripudia literalmente de pacientes, colegas de profissão, amigos, paixões, enfim, ele não vale um traque, mas o sujeito diagnostica doenças que até Deus duvida. 

 

A patroa gosta e eu não discuto porque tenho juízo. Não se trata aqui de fazer propaganda da série, até porque eu não ganho nada com isso, apenas preciso deste gancho para falar sobre o tema título desta crônica: a verdade.  Num dos episódios havia um paciente que contraiu uma doença com sintomas muito estranhos: ele não sabia mentir.  Quando chegava a crise o sujeito desandava a dizer tudo o que lhe vinha à cabeça, e podia ser quem fosse, dos médicos até a filha, ninguém escapava.  Pesquisa daqui, pesquisa dali e o tal House descobriu que a área do cérebro onde filtramos o que pensamos para dizer o que queremos estava danificada, ou seja, a criatura vinha ladeira abaixo sem freio. O que me chamou a atenção foi o médico arrogante apreciar aquela sinceridade do sujeito, encontrando enfim um igual a ele, lamentando proceder com a cura porque ele voltaria a ser hipócrita.  E quando isso aconteceu, tudo que o cara passou a dizer de educado e politicamente correto foi posto em dúvida pela mulher, filha e todo o povo que ele esculachou. O sujeito estava condenado pelo resto da vida a ser um mentiroso, por conta de algumas horas de sinceridade.

 

A verdade é uma coisa preciosa e perigosa, principalmente porque temos as nossas e elas são sempre melhores que a dos outros, isso sem contar aquelas pessoas com quem precisamos conviver sorrindo, mas por dentro choramos nossa raiva.  Será que somos hipócritas ou apenas educados porque vivemos em sociedade e não podemos sair por aí dizendo tudo que pensamos?  Talvez um pouco de cada.  Existem situações que o silêncio ou a polidez no falar são essenciais, mas quantas vezes omitimos a verdade necessária, quantas vezes travamos nossos mais sinceros pensamentos para mantermos aparências, conquistarmos coisas muitas vezes irrelevantes, ou por medo simplesmente? Tomemos o seguinte exemplo: você tem um filho bonito, forte, saudável, mas o garoto é um projeto de capeta.  O que você faz? Escuta a crítica dos outros ou simplesmente rechaça tudo, porque seu tchuco-tchuco é perfeito e o resto do mundo é que não presta? A verdade, mesmo dura, invoca você a reconhecer que precisa tomar providências?

 

E quando erramos? Assumimos a falha ou colocamos a culpa em alguém, nas circunstâncias, no tempo?  Ainda há a mentira para conseguir dinheiro, poder ou mesmo um amor.  Vide políticos e sites de relacionamentos, onde se diz o que quer sem o menor compromisso com a verdade.  Mentir é fácil e encobre o que não desejamos que os outros saibam sobre nós.  Basta ir até o presídio e perguntar: você vai ver que é todo mundo inocente. E nós, somos sinceros o tempo todo?

 

É como dizia minha mãe: “filho feio não tem pai”.

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