Mauro Barbosa Gomes

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Novo Acordo Ortográfico

Muito a contragosto (espera aí que eu estou vendo se tem hífen) escrevo esta crônica utilizando a nova ortografia.  Não sei por que resolveram mexer em time que estava ganhando, “é para unificar a escrita nos países de língua portuguesa”, explica minha irmã, professora de português e de literatura das mais competentes e fervorosa defensora desta questão. Então tá.  E não foi só ela que gostou, a coisa em terras tupiniquins pegou tanto que até revista de R$ 1,99 adotou o novo acordo, que nem é tão novo assim, foi assinado em 1990, mas só agora está valendo.  Legal, mas ainda não me sinto confortável, não me bastassem as vírgulas e crases. Por exemplo, eu gostava da ideia do acento, mas tiraram até o da boleia do caminhão, e olha que estou um tanto paranoico com essa história, porque não sei de mais nada..

 

O trema sim já foi tarde, o acordo deveria se resumir a isto: caíram todos os tremas, pronto.  É claro que vamos falar como se tivessem, porque linguiça e pinguim sem o som do trema é dose, né? Este último lá em Minas ficaria difícil entender. Imaginem a frase “Aquilo foi só um pinguim”.  Tratar-se-ia (mesóclise é lindo não é?) de um pingo d’água ou do bicho propriamente dito?  Quem sabe?

 

Tem palavra que sofreu uma verdadeira devastação como paraquedas, que antes se escrevia pára-quedas. Tiraram o acento, o hífen, a identidade, o troço não abriu e o sujeito pendurado nele se espatifou no chão da nova ortografia.  O corretor ortográfico do Word enlouqueceu de vez e vive a base de calmantes após o famigerado acordo, ele quer botar acento e hífen em tudo, você tira e ele recoloca, está mais difícil convencê-lo do que a mim mesmo.  Agora não poderei mais alçar voos literários sem que isso me cause enjoo. Tudo bem, um dia eu perdoo, mas até tu, minha irmã? Só me falta tirarem o acento das proparoxítonas e oxítonas, o consolo que ainda me resta.

 

Tudo isso me fez lembrar de uma noite insone, estava eu largado no sofá quando escutei o galo cantar e o vento uivar na minha janela.  Veio-me então a visão da prosopopeia com acento e aí não deu para segurar: eu chorei meus amigos, confesso.  Depois senti raiva, é o processo da aceitação, perguntem aos psicólogos.  E foi contra o hífen, caramba! Ele já era o traço da discórdia e aí mexeram nele ou com ele, sei lá.  Percebi que o que eu não sabia antes, passei a saber menos ainda.  Ele se tornou um arqui-inimigo com hífen, valha-me Senhor!  Tudo bem, um dia eu faço um mea-culpa ou mea culpa, não descobri ainda, há dicionário que diz que tem, mas existe professor doutor em Letras dizendo que não. E aí, minha irmã?

 

 

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