Mauro Barbosa Gomes

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NEWS

Para pessoas

com visão

de futuro

Na Sapataria

 

Ficava num grande shopping e era um sábado chuvoso de tarde. A visão assemelhava-se a do inferno em dia ruim. Talvez pior. A mulherada se debatia em torno das promoções e dos inúmeros modelos de sandálias, para mim todas iguais, mas para elas, todas diferentes. Um absurdo eu achar isso. Principalmente as de tiras, teimava eu enquanto relutava em entrar naquela selva de salto.

Minha senhora, como era de se esperar, não estava indiferente ao frenesi que tomou conta daquelas mulheres, porque na hora de comprar um sapato tudo o mais perde a importância: crise mundial, pandemia de gripe, traição. E minha consorte foi recolhendo tudo que via pela frente, em promoção, claro, mas nada escapava àquele olhar felino pronto para atacar sua presa. E experimenta daqui, desfila dali, olha no espelho, vendedor subindo e descendo escadas. Por falar nisso, toda sapataria tem um portal onde eles entram, os vendedores, e desaparecem, já notou? Quando sobem aquelas estreitas escadas cobertas por caixas desarrumadas, é como se eles fossem parar em outra dimensão, a dos sapatos em promoção, e de lá só retornassem os mais experientes. Minha amada solicitou 9 pares a um vendedor novato e a criatura foi e não voltou. Passaram-se 10, 15, 20 minutos e nada do sujeito. Eu suava frio, aquele burburinho frenético oriundo das exaltadas senhoras excitadas com tanta bota, bolsa e similares, misturado ao calor sufocante e aos pisões que recebi das pontas finas dos altíssimos saltos – outra coisa que eu não entendo na natureza: como elas andam sobre aquilo – me levaram a reclamar.

- Querida vamos embora, esse vendedor foi abduzido por algum tênis alienígena que pretende exterminar todos os saltos altos do planeta e implantar definitivamente o chulé nos pés femininos mais delicados.

- Meu bem – respondeu sacudindo levemente a cabeça sem olhar nos meus olhos. Quando ela faz assim quer dizer o seguinte: se aquiete homem.

- Meu bem – continuou – tenha paciência, o rapaz está procurando, é assim mesmo que funciona.

- Não é não – retruquei consultando minhas anotações. – Aquele vendedor vestido de amarelo icterícia foi e voltou cinco vezes. Vamos pedir a ele pra tentar resgatar o novato. – Foi o que fizemos e o sujeito também sumiu no limbo dos calçados.

- Ai minha Santa Ifigênia do Salto Alto, cadê o cidadão?

- Meu bem, calma, já disse que é assim mesmo. – esperamos mais uma hora até que voltaram os dois, desarrumados, olhos esbugalhados, trazendo apenas um pé de cada par. Parti pra cima dos caras, virei uma fera, tumulto geral, eu sou sagaz, destemido, mas minha fidedigna esposa segurou-me o ímpeto e pediu, solícita, que o rapaz trouxesse os sapatos que faltavam.

- Sabe o que é um par não, seu analfabeto? – Esse sou eu antes de tomar ansiolíticos. Mais meia hora e surge a criatura de Deus com os sapatos restantes. Eu sorri aliviado e me dirigi ao balcão, estava em paz, realizado, num êxtase divino. Peguei o cartão da minha senhora e entreguei ao caixa, paga logo isso meu filho, paga o de todo mundo, paga geral, estou no Nirvana e o cartão é dela.  Foi quando o inusitado aconteceu.

- Não vou levar mais nada – não fui eu, foi minha digníssima que, mantendo toda a calma do mundo, destruiu minha vida e a do vendedor novato, coitado..

- Como não? – retruquei com os lábios inferiores iniciando um delirium tremens - Estamos aqui há quase duas horas, você disse que estava tudo bem, que era assim mesmo, quase recitou um mantra e agora não quer levar mais nada?

- Meu bem – ou seja, fica quieto – Eu desisti porque me desencantei com estes modelos, não sei, não rolou. Quero ver outros. E foi mesmo.