Mauro Barbosa Gomes

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NEWS

Para pessoas

com visão

de futuro

A Chave

 

Era um sujeito solitário e andava mal, mas mal de dar pena se alguém pudesse vê-lo naquele estado.  Mas teria que ser um vidente, destas pessoas que percebem no olhar do outro a realidade camuflada.

 

O sujeito em questão nada aparentava, vivia jovial e piadista, notava-se até um certo exagero naquela alegria toda.  Era a alegria dos tristes, poucos percebem, mas em tudo que é exacerbado há desequilíbrio.  Os que são demais são tristes, no fim.

 

E por que o tal sujeito estava assim tão mal? Era por causa de um amor que ele achava que amava, destes não correspondidos em nada, destes que chegam a ser humilhantes para aquele que se deixa levar. A vida andava uma lástima por conta de um amor que ele já nem sabia, poderia ser qualquer coisa, um capricho, uma obsessão. Todos os conselhos falados e lidos eram em vão: “quando um não quer dois não brigam”. “Se dê valor homem”. “Não se humilhe, quem se abaixa demais aparece o que não deve” e por aí iam as mais variadas orientações para que ele se livrasse daquilo.  As pessoas não entendem que muitas vezes as palavras ajudam, mas é preciso tempo para que façam efeito, porque ele vai mostrando aos poucos a inutilidade daquela dor.

 

Um dia o dito sentou-se na beirada da cama que rangia seu peso e, tarde da noite, pôs-se a orar, coisa que nunca fizera na vida.  Nada mais restava fazer, até que ele viu escrito num carro a frase “Ora que melhora”. Aí ele tentou, não tinha o que perder mesmo. Pediu o pedido do jeito dele, inexperiente nessas coisas de Deus, e na sua amargura que o tirou de órbita pôs-se a falar com o Dono do mundo. Reclamou da vida, das coisas que não davam certo e que pareciam piores por causa dela, aliás como era linda, o jeito de olhar, os cachos negros, o brilho da pele sob a luz do luar (isso fazia parte da imaginação), e suspirava aquele desejo do impossível.

 

No final, já sem saber o que dizia, coisa bem comum aos que reclamam, desafiou Deus a provar sua existência, exigindo que Ele lhe entregasse a chave que abriria a porta do coração daquela mulher insensível a todas as suas demonstrações de afeto. Porém, passada algumas horas sem nada acontecer, ele concluiu que Deus não existia mesmo e foi dormir.

 

No dia seguinte quando acordou só não morreu de susto porque o coração era jovem e sadio. Pela cama, quarto e por toda a casa amontoavam-se chaves de variados tipos e tamanhos. O sujeito mal conseguia se movimentar em meio aquele emaranhado de peças. Atônito, tentou por alguns instantes entender racionalmente o que estava acontecendo. Verificou a porta de entrada e não encontrou qualquer sinal de arrombamento, aliás estava tudo trancado exatamente como ele deixou na noite anterior. Pela janela só voando, pois morava no vigésimo andar. Ligou para o porteiro, sei lá, pensou, alguma encomenda de última hora com um entregador disposto a deixar o produto no endereço solicitado custasse o que custasse. O porteiro estranhou a pergunta e desligou rapidamente, deixando o sujeito sem uma resposta racional. Foi quando resolveu arriscar o que seria o mais improvável: Deus. Então foi Ele quem fez essa bagunça, existe afinal, só que o trato era somente uma chave, a que o levaria ao paraíso.

 

Resmungou, concluindo que fora uma vingança por Tê-lo desafiado. Olhando em torno com desânimo, reparou que no meio de tudo havia uma folha de papel luminosa, o que despertou sua curiosidade.  Nela estava escrito por linhas tortas que ali em sua casa se encontravam as chaves de todos os corações humanos e a que tanto ele desejava estava dentre elas, bastava procurar. E ainda havia um PS “Não adianta jogá-las fora, elas voltarão para você e só você pode vê-las, afinal, o pedido foi seu. O sujeito gargalhou sua infelicidade e blasfemou contra Deus, que julgou um sarcástico insensível. Com o tempo e por curiosidade experimentou algumas em sua amada, sem sucesso. Resolveu por fim, tentar abrir qualquer coração que cruzasse seu caminho. Tempos depois, para sua surpresa, observou que em todos aqueles que conseguiu entrar, ricos e pobres, felizes e tristes, sadios e doentes, havia uma coisa em comum: o vazio de amor por conta do medo de amar.

 

Embora tanto se fale, escreva e se toque o amor, ele está ausente de sua própria casa. É preciso resgatá-lo e que cada um pegue para si algumas chaves com o tal sujeito que, envolvido neste trabalho, esqueceu-se do seu problema, pois se um coração não desejava seu amor, em outros ele encontrou um mundo de possibilidades.