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Mauro Barbosa Gomes

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Papo de magra

        

 

 

Outro dia, ouvindo algumas moças conversando sobre outras moças, coisas de menina, me surpreendi quando uma delas me saiu com esta pérola: “isso é papo de magra”.  Foi bem engraçado, dentro do contexto que se apresentava, uma brincadeira sem maiores pretensões, mas aquilo me causou um certo impacto.

Fiquei pensando sobre a frase, que mais parecia uma sentença, e concluí, na minha incansável imaginação, que realmente nós estamos divididos em tribos: os magros, os gordos, os esportistas, os preguiçosos que adoram um controle remoto, e por aí vai. Papo de magra é uma definição mais ampla do que parece.

Literalmente, pelo que pude entender, é quando mulheres conversam sobre salada, calorias, comida diet, o espelho, esse inimigo, e finalmente, calorias.

Por analogia, papo de gorda dever ser: “gente, liberou geral, pode atacar carnes, bacon, feijoada, cerveja, pudim com calda, e depois um lanchinho no McDonalds.”

É como se a gorda zen não tivesse o menor problema com o fato em si, enquanto a magra obcecada, por se achar gorda, vive ansiosa enquanto come, cheia de culpa, uma folha de alface.

Mas como eu disse, essa questão me parece mais abrangente. Será que, talvez, nós tenhamos conversas deste tipo em nossas relações cotidianas, e não nos damos conta?

Meditemos. Neste mundo consumidor, vive-se constantemente a ânsia do mais, uma busca constante pelo novo, diferente. Se temos um carro popular que nos atenda, logo desejamos um melhor, zero km, de preferência. Se compramos um celular moderno e cheio de tecnologia, mas vem alguém com outro que julgamos ainda melhor, bate o arquétipo “você está gorda.” Pronto, a cabeça entra em parafuso e o desejo desse mais acomete impiedoso, porque o que era lançamento ainda agora, tornou-se obsoleto pouco depois. Loucuras dos tempos modernos.

Papo de magra pode ser uma insatisfação crônica conosco mesmo. A busca constante pelo mais de fora, pode esconder uma tristeza que vem de dentro. Você se ama? É feliz com o que tem? Eu venho me fazendo essa pergunta, e confesso que ainda não encontrei a resposta, já que também vivo essa busca. Isto em si não é ruim. Procurar o melhor é um dever do progresso, da evolução do ser. Mas essa procura pelo que tange apenas às necessidades do corpo é preocupante. Vem-me a velha questão do ser e do ter.  Podemos ter muito e nos sentir pouco, o que nos faz perseguir constantemente esse ter.

Nelson Mandela teve muito pouco durante os 27 anos em que ficou preso numa cela que mal cabia seu corpo, mas se transformou num dos homens mais admiráveis da história recente da humanidade. Tendo pouco, ele se tornou muito.

De onde será que vem essa avidez consumista que nos devora? Podemos comer alface e um bife sem preocupação: isto é equilíbrio. Podemos substituir o caviar por uma omelete sem problemas: isto é aceitação.

Sei que foi apenas um simples papo de magra, e acabei fazendo dele uma feijoada completa. Mas essa é a minha função como cronista. Acrescentar tempero ao cotidiano. Mesmo que engorde.

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