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Mauro Barbosa Gomes Visite o blog do autor: http://blogs.abril.com.br/letrarte Email para contato: mbgmauro@gmail.com
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Mudança II—sobre os escombros
No princípio era uma empresa sólida e estável no Rio de Janeiro. Nela reinavam a harmonia, a paz e todos pareciam pertencer a uma mesma família. Tinha o pai, a mãe, os irmãos, tios, os primos chatos, as primas gostosas, as tias feias. As festas eram regadas a bebida, comida, música e muita confraternização. Essa empresa era uma típica família latina feliz. Até que vieram os primeiros problemas. O pai comprou outra empresa e, montando uma nova família, decidiu que todo mundo ia morar junto. - Ninguém vai tomar meu lugar – gritava um. - Essa mesa é minha – bradava outro, preocupado com os irmãos bastardos que estavam por chegar. Não teve jeito, foi um Deus nos acuda, mas a casa era grande, o pai bom e a empresa sólida. O tempo foi passando, as coisas se ajeitaram, a nova família, agora maior, vivia em perene calmaria, todos se sentindo protegidos do mundo lá fora que se digladiava em crises econômicas sucessivas. Mas ali o mar era calmo, o céu azul e o vento apenas uma brisa suave. Quando tudo parecia se encaminhar para um final feliz, veio a morte do pai. O grande navio estava sem o seu almirante e por conta disso iniciou-se uma disputa feroz pelo poder. Era tanta gente de tanta família disputando o lugar de almirante que a nave sentiu um tremendo abalo. A família de antes mudou e transformou-se num time. Um time coeso é verdade, mas sem vínculos consangüíneos, nada de tios, primas peitudas e irmãos. Agora eram zagueiros, atacantes e goleiros, tendo à frente um técnico gritando aos 45 do segundo tempo: corre cambada de molengas, senão já sabe! Mais tarde os jogadores se transformaram em colaboradores, nome dado àquele que, mesmo trabalhando direitinho, está fazendo tudo errado e por isso será mal avaliado. - Mas eu dei o meu sangue este ano, professor – é a maneira como o jogador se dirige ao técnico, já que o sujeito não se acostumou com essa coisa de colaborador. - Fez mais que a obrigação – respondeu secamente o chefe, agora conhecido como assessor. E dentro deste cenário foi instaurada uma crise de identidade sem precedentes entre os membros da equipe, quer dizer, do time, ou será colaboradores? Sei lá. - Quem é você? Meu irmão, um beque central ou um cara que vai me fazer um favor? - Nem um nem outro, eu sou um auditor. - E eu um consultor. Juntos, vamos mudar as coisas, dar mais agilidade a esta empresa. Vocês são lentos, onerosos. Vamos cortar tudo. Cortem as cabeças! Advieram momentos de tensão e as siglas começaram a surgir em profusão: ABC, CSC, PDV e por aí vai. Todas eram assustadoras porque significavam que aquela família que se transformou em um time de colaboradores, agora não passava de um gado pronto para ser marcado e quem sabe, abatido. Entretanto, quando tudo parecia perdido, chegou a bombástica notícia: - A empresa foi vendida! – Houve gritos, sussurros e sexo selvagem. Todos foram tomados de uma euforia inebriante e gritaram “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” Os gananciosos sucessores do grande pai, finalmente saíram para gastar os bilhões da venda. Acabou a tortura, quer dizer, até a voz da razão pedir a palavra. - Pessoal, se fomos vendidos, isto significa que estamos ferrados, já que vamos ser demitidos com alguma palavra bonita, tipo sinergia, integração, fusão, etc. - É mesmo – silêncio no grande barco...ou barca. – Junto com a mudança veio Andressa, uma mulher que integra qualquer coisa. Ela era o técnico de um time voraz e eles literalmente invadiram a nossa praia. Aí houve choro, ranger de dentes, pânico, raiva, maledicências, a “rádio corredor” estava a pleno vapor, pois acontecia de tudo na fase de transição Anos depois, completada a tal integração, restaram os escombros daquela família de outrora, agora um velho navio encalhado numa “ilha” qualquer de São Paulo. Ao longe, um sobrevivente divagava a respeito da nova realidade dos que sobreviveram e disputavam, a tapas, o pouco que sobrou do ataque predatório: - Os amigos me traem e os inimigos me adulam. Ambos o fazem para obter de mim vantagens, porque estou sobre o último prato do que já foi uma lauta refeição. Meus pés descalços pisam em pedras, mas elas machucam apenas o meu coração. Mudança lenta numa grande empresa é comparável ao apocalipse. Mas antes de ser o fim incontestável, pode ser a oportunidade de um novo começo, principalmente para os “familiares” mais antigos, aqueles que sentiram forte e bastante a queda da árvore frondosa que os abrigou por tantos anos. |
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