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Para pessoas

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Mauro Barbosa Gomes

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O homem que não conseguia sair

Havia um sujeito que pensava não possuir predicado algum.

Estava infeliz no trabalho, não se dava muito bem com as mulheres, era feinho.

Vamos dizer que a vida do cara era um tédio só. Até que um dia, imbuído de uma confiança rara, tomou uma decisão que o encheu de alegria.  Assim que surgisse uma oportunidade ele deixaria o emprego que o abrigou por quase 30 anos, e lhe deu salário e benefícios dignos em troca de muito trabalho, é bem verdade. Mas ele queria cair na vida, se esbaldar como nunca, ele ia ser feliz, ah se ia! O problema é que a vida normalmente dava com uma mão e tirava com a outra, e aí ele vivia triste, dessas tristezas que deixam a criatura sem forças para nada, sabe?

- E aí Tristão, tudo bem?

- Hum...– um rosnar gutural.

- Ele disse que está tudo bem e que você já pode ir – complementou um colega mais chegado.

- Puxa, tem tradução?

- Sim. E olha que ele está bem, porque se não você teria agora um olho roxo, um dedo quebrado e o pescoço esganado. Quiçá coisa pior. Dê-se por satisfeito.

- Então esse grunhido foi um tubo bem resumido?

- Foi. Acho até que ele gostou de você, normalmente ele cospe no sujeito.

Tristão era gente boa, mas triste. Um cara legal, porém chato. Um sujeito bom, todavia infeliz. Bate uma depressão falar dele. Mas isso foi até a sólida empresa onde trabalhava ser comprada por outra não tão sólida assim, fato este que tem causa nessas artimanhas do mercado financeiro, a conjuntura macro-econômica, os juros sobem porque o presidente americano acordou de mau humor ou porque o diretor do FMI é tarado por arrumadeiras de hotel. E aí todos ficaram de aviso prévio, um Deus nos acuda, a turma naquela loucura toda.

- Mas vai ter pacote.

- Pelo menos isso. Fundo de garantia, décimo terceiro, tudo que se tem direito.    No fundo, contudo, foi uma apatia geral. A maioria contava muitos anos de casa, a relação entre funcionário e empresa era familiar, coisa de mãe e filho, um grude só. Por conta disso houve um silêncio sepulcral por toda a corporação, já que a separação se fazia iminente. Menos Tristão. Esse era o próprio pinto no lixo. Exultou, gritou “obas” internamente, saiu falando pelos cotovelos. Agora sim!

- Pessoal, eu estou bem.

- Mas está todo mundo mal, Tristão.

- Eu tô legal, gente - saltitava.

- Vá à merda, Tristão!

- Me sinto leve, sabe?

O mundo dá voltas mesmo. O antes triste Tristão agora só pensava em pegar sua grana e sumir com a cabeça coberta de planos. E quando finalmente chegou o dia, o gerente reuniu a equipe e anunciou os nomes da lista negra.

- Você, você, aquele ali atrás do balcão, ô rapaz, não adianta se esconder.

- Nazista! – gritou o sujeito oculto com aquela voz rouca que o denunciava. Mas não teve jeito. E assim, um por um, foram todos caindo como peças de dominó que um simples dedo derruba. Mas nada de chegar a vez do Tristão. Quase no fim da “carnificina” ele não aguentou:

- Chefe, e eu?

- Você fica, vai assumir as funções do pessoal que saiu.

- Mas...

- Está feliz, não é? O único que garantiu o emprego. Fez promessa, confessa!

- Não é isso, é que eu quero...

- Ficar, eu sei. E já ficou – deu um tapinha nas costas do coitado - agora vamos trabalhar, acabou a moleza.

No Brasil a coisa mais fácil de acontecer na vida de um trabalhador é ele ser demitido, menos para Tristão. E, diga-se de passagem, o sujeito tentou.

- Eu quero ir embora.

- Mas por que?

- Arranjei outro emprego.

- Está bem, vou demitir você.  – Tristão quase beijou o homem, mas a alegria durou pouco. O sujeito foi desligado da empresa dez minutos depois de falar com ele.

- Santa urucubaca!

- Aliviado, não é? – sentenciou o novo chefe – O cara ia te demitir mas eu cheguei a tempo. Não precisa agradecer, só fica esperto porque a foice continua passando. Então mantém a cabeça baixa – E gargalharam a própria insanidade.

- Mas senhor, eu quero ser demitido.

- Seu cão danado, sabe que eu gosto desse seu senso de humor? – concluiu o novo patrão puxando os suspensórios, todo orgulhoso de si – Por isso não te mandei embora. O pessoal dizia que você era triste, desmotivado, que arranjou outro emprego. Nada! Um bando de fofoqueiros invejosos, isso sim. Você é o cara.

- O cara sem pacote.

- É isso.

- O cara com emprego.

- Grande garoto!

- Então eu estou feliz!

- Muito bem, Tristão, assim é que se fala!

Uma hora depois o novo chefe foi encontrado desmaiado com um olho roxo, um dedo quebrado e marcas de mãos no pescoço. Tristão foi visto pela última vez tentando subornar o estagiário de RH. Ele queria uma carta de demissão falsificada. Foi preso e sentenciado a cumprir uma pena de dois anos de reclusão. Enfim, a liberdade tão sonhada!

Tempos depois o novo chefe foi visitá-lo na penitenciária. Apegou-se a ele, essas coisas do coração que não se explica.

- Tenho coração mole rapaz. Já te perdoei – e mostrou a foto da mesa de Tristão.

- Está esperando por você – Sorriu cheio de cumplicidade. Por essa atitude, terminou com outro olho roxo, três dedos quebrados e ainda levou uma cusparada de causar inveja a muita calçada por aí.

A pena dobrou. O salário de Tristão também.

 

 

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