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Guerra das máquinas

P. W. Singer dirige a Iniciativa de Defesa do Século 21 e é autor do best seller de 2009 Wired for war: the robotics revolution and confl ict in the 21st Century (wiredforwar.pwsinger.com).

 

No INÍCIO DOS ANOS 70, cientistas, engenheiros, fornecedores do ramo de defesa e ofi ciais da Força Aérea dos Estados Unidos se reuniram para formar um grupo profissional. Tentavam essencialmente resolver o mesmo problema: como construir máquinas capazes de operar por si mesmas, sem controle humano, e convencer tanto o público quanto relutantes chefes do Pentágono de que robôs no campo de batalha são uma boa ideia. Durante décadas se encontraram uma ou duas vezes por ano, em relativa obscuridade, a fi m de discutir questões técnicas, trocar fofocas e renovar velhas amizades. Esse grupo outrora acolhedor, chamado Associação para Sistemas Internacionais não Tripulados, agora compreende mais de 1,5 mil empresas associadas e organizações de 55 países. O crescimento ocorreu tão depressa, de fato, que a associação se viu numa situação parecida com uma crise de identidade. Em uma das reuniões, em San Diego, até se contratou um “mestre contador de histórias” para ajudar o grupo a criar coletivamente a narrativa das impressionantes mudanças na tecnologia robótica. Um dos participantes resumiu o sentimento geral: “De onde viemos? Onde estamos? E aonde deveríamos – e aonde queremos – ir?”.

O que desencadeou a autoanálise do grupo é uma das mais profundas mudanças nas técnicas de guerra modernas desde o advento da pólvora e do aeroplano: um aumento assombrosamente rápido no uso de robôs no campo de batalha. Não houve um único robô a acompanhar o avanço dos Estados Unidos do Kuwait em direção a Bagdá em 2003. Desde então, 7 mil aviões e mais 12 mil veículos terrestres “não tripulados” passaram a fazer parte do aparato militar americano, aos quais cabem missões que variam de localizar franco-atiradores a bombardear os esconderijos do alto escalão da Al-Qaeda no Paquistão. As forças de combate mais poderosas do mundo, que antigamente se abstinham de usar robôs por considerá- los impróprios para sua cultura guerreira, adotaram a “guerra das máquinas” como meio de combater um inimigo irregular, que detona explosões por controle remoto com telefones celulares e, em seguida, desaparece de novo no meio da multidão. Esses sistemas robóticos não só têm um grande efeito sobre o conceito de como se luta esse tipo de guerra, mas também deram início a uma série de debates a respeito das implicações do uso crescente de máquinas mais autônomas e inteligentes em combate. Tirar os soldados da linha de fogo talvez ajude a salvar vidas, mas o crescente uso de robôs também levanta pro fundas questões políticas, legais e éticas sobre a natureza fundamental das técnicas de guerra e se essas tecnologias inadvertidamente não facilitariam o início de mais guerras.

As primeiras tramas desta narrativa remontam – embora seja discutível – à peça R.U.R., de 1921, em que o escritor checo Karel Capek cunhou o termo “robô” para descrever serviçais mecânicos que algum tempo depois se revoltam contra seus senhores humanos. O termo estava carregado de signifi cados porque deriva da palavra checa para “servidão” e de um termo eslavo ainda mais antigo para “escravo”, historicamente ligado aos robotniks, camponeses que tinham se revoltado contra os ricos proprietários de terras nos anos 1800. Esse tema – robôs assumirem o trabalho que não queremos fazer, mas que por fim assumem também todo o controle – é um lugar-comum da fi cção científi ca que vimos continuar em fenômenos como O exterminador do futuro e Matrix.

Atualmente os “roboticistas” invocam denominações como “não tripulados” ou “operados por con trole remoto” para evitar imagens, estimuladas por Hollywood, de máquinas prontas para acabar com a raça humana. Nos termos mais simples, os robôs são máquinas construídas para operar num paradigma “sinta-pense-aja”. Ou seja, eles têm sensores que recolhem informações sobre o mundo. Esses dados são em seguida transmitidos a processadores de computadores – e talvez a softwares de inteligência artifi cial – que os usam para tomar decisões apropriadas. Finalmente, com base nessas informações, sistemas mecânicos conhecidos como efetores (órgãos ou substâncias que reagem a estímulos) realizam algumas ações físicas no mundo em torno deles. Robôs não precisam ser antropomórfi cos, como no conhecido chavão hollywoodiano da fi gura humanoide numa roupa de metal. O tamanho e a forma dos sistemas que começam a executar essas ações variam de modo muito amplo e raramente evocam imagens como a do C-3PO ou a do Exterminador do futuro.

O sistema de satélite de posicionamento global (GPS, na sigla em inglês), controles remotos com aparência de videogames e uma série de outras tecnologias tornaram os robôs ao mesmo tempo úteis e utilizáveis no campo de batalha durante a década inicial do século 21. O aumento da capacidade de observar, identifi car com precisão e em seguida atacar alvos em ambientes hostis sem ter de expor o operador humano ao perigo tornou-se prioridade depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, e cada novo uso dos sistemas no solo criou uma história de sucesso que teve repercussões ainda maiores. Por exemplo, nos primeiros meses da campanha afegã em 2001, um protótipo do PackBot, agora usado amplamente para desativar bombas, foi enviado ao campo de batalha para testes. Os soldados gostaram tanto da engenhoca que não quiseram devolvê-la à fabricante, iRobot, que desde então passou a vender milhões de unidades. De modo semelhante, um executivo de outra empresa do ramo da robótica contava que, antes de 11 de setembro, ele nunca conseguia que o Pentágono retornasse suas ligações telefônicas. Depois, recebeu a ordem: “Faça-os o mais depressa que puder”.

A velocidade com que aumentou a aceitação da robótica militar tornou-se aparente à medida que se desenrolava a guerra no Iraque. Quando as tropas americanas foram para lá em 2003, a força de invasão terrestre não possuía um só sistema não controlado por humanos. Por volta do fi m de 2004, o número tinha crescido para 150 ou mais. Um ano depois alcançava 2,4 mil. Em 2010 o aparato robótico militar dos Estados Unidos chegou a mais de 12 mil. A mesma tendência se manifestou quanto a armamentos aéreos: as Forças Armadas americanas passaram de uma porção de veículos aéreos não tripulados para mais de 7 mil. E esse aumento é só o começo. Um general da Força Aérea americana prevê que o próximo confl ito importante do país envolverá não só esses milhares de robôs atualmente já nos campos de batalha, e sim “dezenas de milhares”.

Por si só esses números revelam uma importante mudança na atitude de um estamento militar que até o início do século 21 ainda se mostrava reticente quanto à capacidade dos robôs e cioso da antiqüíssima prerrogativa do guerreiro de liderar o ataque na hora de entrar em combate. A mudança fez com que a Força Aérea, o Exército e a Marinha dos Estados Unidos passassem a seduzir recrutas adolescentes por meio de anúncios na TV que orgulhosamente pregoam – como acentua uma dessas campanhas – que a Marinha americana “trabalha diariamente para retirar os seres humanos das linhas de frente”.

Quando adolescentes se decidem pela carreira militar, a exposição a sistemas automatizados passa a ser parte integral da experiência deles, da indução à descarga – de armar a atirar. Usam os mais avançados softwares de treinamento virtual para aprender como operar determinado sistema de armas. Depois do treinamento, estão aptos a operar um PackBot do tamanho de um cortador de grama ou um robô de solo Talon preparado para desativar bombas ou espiar acima do topo de uma serra, na caça a insurgentes no Iraque ou no Afeganistão.

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